O
Relatório Icomex, divulgado pela
FGV IBRE em
14 de outubro de 2025, confirma que o chamado
“tarifaço de Trump” — a política de elevação de tarifas dos Estados Unidos sobre produtos importados — já provocou
mudanças estruturais nas exportações brasileiras e uma
reconfiguração dos fluxos comerciais globais.
Crescimento global, mas com redirecionamento de mercados
O relatório destaca que, no primeiro semestre de 2025, o comércio mundial cresceu
4,9%, impulsionado pela
antecipação de exportações para os EUA e pela expansão de setores ligados à inteligência artificial. A
Organização Mundial do Comércio (OMC) revisou sua projeção de crescimento do comércio global de
0,9% para 2,4%, após o anúncio do tarifaço em
2 de abril de 2025 (Liberation Day).
Embora a economia americana tenha se mostrado mais resiliente do que o esperado, a FGV alerta que o impacto pleno das tarifas ainda será sentido — à medida que os aumentos forem repassados aos preços finais.
Efeitos no Brasil: queda nas exportações para os EUA e compensação pela Ásia
Os dados do Icomex indicam que, em setembro de 2025,
as exportações brasileiras cresceram 9,6% em volume e
7,2% em valor na comparação com setembro de 2024. Já as
importações aumentaram 16,2% em volume e
17,7% em valor.
O superávit da balança comercial brasileira no mês foi de
US$ 3 bilhões, e o acumulado do ano até setembro somou
US$ 45,5 bilhões, o que representa
queda de US$ 13,2 bilhões em relação a 2024.
Apesar do crescimento agregado, houve uma
queda de 19,1% no volume exportado para os Estados Unidos, enquanto
as vendas para a China aumentaram 15% e
para a Argentina, 22%.
Na soma,
China, União Europeia e Argentina passaram a absorver
40% das exportações brasileiras, compensando parcialmente as perdas no mercado americano.
Setores mais atingidos
O impacto do tarifaço foi desigual entre os setores:
- Agropecuária: registrou forte reversão — após crescer 9,5% em agosto, caiu 32,3% em setembro nas exportações para os EUA.
- Máquinas e equipamentos: inverteram de alta de 15% para queda de 10,9%.
- Produtos farmacêuticos: caíram 31,1%.
- Madeira, couro e têxteis também registraram retração significativa.
- Apenas dois segmentos tiveram melhora: coque e transporte (pequenos avanços pontuais).
Entre os produtos mais afetados estão
carne bovina congelada (-66%),
fumo (-95%) e
madeira serrada (-73%). Em contrapartida, alguns itens como
chapas de alumínio (+1.222%) e
pneus de caminhões (+467%) registraram alta, devido à substituição de fornecedores asiáticos.
Redesenho da pauta exportadora
O relatório conclui que o “tarifaço” está
mudando a estrutura das exportações brasileiras, tanto em destinos quanto em composição setorial. Houve
ganhos de mercado na Ásia (fora da China), na
América do Sul (fora da Argentina) e no
México, sugerindo que o Brasil vem buscando novos parceiros para compensar o fechamento parcial do mercado norte-americano.
Entretanto, a
balança comercial com os EUA passou de déficit de US$ 1,3 bilhão para US$ 5,1 bilhões, e o superávit com a China caiu de
US$ 30,1 bilhões para US$ 22 bilhões.
A
Argentina, por sua vez, passou de déficit de
US$ 50 milhões para superávit de US$ 4,7 bilhões, impulsionada pelo setor automotivo.
O desafio para as empresas brasileiras
Para o setor privado, o cenário confirma a necessidade de
adaptação rápida às novas dinâmicas do comércio internacional. Exportadores devem reavaliar:
- Rotas logísticas e regimes aduaneiros especiais;
- Estratégias de precificação e margem de lucro;
- Diversificação de mercados e mitigação de riscos cambiais.
Na
RSH – Reis, Simas e Heidrich Advogados, acompanhamos atentamente as transformações do comércio exterior e seus impactos tributários, auxiliando
empresas importadoras, exportadoras e despachantes na
adequação às normas e oportunidades geradas por esse novo contexto global.
Esta é uma publicação em caráter exclusivamente informativo, não devendo ser interpretada como aconselhamento jurídico.
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